Home Todos Comportamento A vida a partir dos 40: uma nova era de si mesmo

Sempre ouvi dizer que a vida ficava melhor depois dos quarenta. Confesso que achava a afirmação demagoga, conversa para consolar os que estavam chegando lá. Já hoje, tenho a mais absoluta da certeza desta veracidade e me pergunto se em outra década, haverá tão grande e positiva mudança, como nesta fase da vida.

A vida fica mais leve, mais fácil, colorida. Tantas coisas deixam de existir, enquanto outras param de ser importantes. As revoltas desaparecem, bem como as culpas e qualquer remorso. O que antes era mágoa ou revolta, simplesmente deixa de ser. E a preocupação com a opinião alheia é algo que nem passa pelos pensamentos.

E não seria certo afirmar que esta transformação vem assim, do nada. Esta metamorfose chega com todos os erros do passado, os tapas na cara, as decepções, frustrações, dores mesmo, que se transformam em aprendizados que nos tornaram outros.

Olhar para trás faz enxergar uma porção de erros, muito mais do que acertos. Por um curto tempo até pode ser motivo de vergonha, mas depois, naturalmente se percebe, que aquele monte de coisa errada serviu para nos fazer chegar exatamente onde estamos: no momento de acertos.

Os relacionamentos ficam melhores, as pessoas a nossa volta são as que querem ficar, e também as que queremos que fiquem. Os que nos excluem, também são excluídos, com muita aceitação e nenhum rancor. Nesta vida, nada é por acaso, e mesmo os que cruzam nosso caminho, somente por um instante, tem algo a nos ensinar, basta que se preste atenção. E a partir dos quarenta, ou talvez até um pouco antes, a percepção fica mais aguçada, o sexto sentido cresce e o sensorial aflora.

É simplesmente sensacional não precisar de ninguém. Não por orgulho ou qualquer coisa do tipo, mas a falta de carência e o velho excesso de romantismo, nos permitem ver que a história do príncipe encantado, ou princesa, é que é conversa para boi dormir. O tal do se tornar seletiva (o) não é demagogia, a gente fica mesmo, mas por gostar de si mesma (o), da companhia de quem se é, simples assim.

Os amigos se tornam uma das coisas mais maravilhosas que se tem. Os reencontros com os poucos que ficaram após algumas décadas e toda a afinidade e cumplicidade de anos de histórias juntos. Creio ser um dos maiores presentes da vida. E não é que alguns continuam chegando?

O trabalho deixa de ser um peso e torna-se leve. Entende-se finalmente que todo e qualquer trabalho realmente dignifica. Fato que por vezes estressa e judia, mas ainda assim são sempre favoráveis aprendizados. Tudo se torna motivo para crescimento pessoal. Nada mais passa batido, como os tempos de antes.

As relações familiares se convertem em algo muito maior. Vê-se o tempo passando nos rostos do que mais amamos: nosso pais e nossos filhos. Como dói ver os que nos deram a vida perdendo a sua vivacidade. E como nos orgulha ver os descendentes crescerem como nós um dia tivemos que fazer. Repetindo os mesmos erros, e descobrindo lentamente os acertos, o caminho que ninguém ensina: o caminhar único de cada um.

O tempo ensina finalmente uma nova percepção sobre a vida, sobre si mesmo e a partir daí tudo muda. O peso nos ombros se transforma em vontade de viver, de surfar, aprender a tocar violão, fazer algo que nunca se fez, aproveitar o tempo, antes que o mesmo acabe. Não é medo de morrer, é anseio por viver a vida como nunca se fez antes, com a percepção madura que só os anos permitem ter.

A juventude pode ter a sua beleza, mas é cheia de ignorância e jamais terá a percepção de alguém de quarenta. E isso é o que conforta qualquer medo de envelhecer.

Acredite, a vida fica muito melhor com o tempo sim.

Mesmo que se perca a vivacidade, o conhecimento e o saber da vida compensam qualquer ruga nos olhos, flacidez ou quilos a mais.

Por mais dores que se tenha vivido, há de chegar o momento em que se usa todo o aprendizado, naturalmente a favor de si mesmo.

E repito aqui uma frase que nunca me esqueci, li pela primeira vez em torno dos meus vinte anos e sempre levo comigo:

“Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento! ” (Clarice Lispector).

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