Home Todos Comportamento Não é o medo de envelhecer, mas do caminho até se chegar...

Creio que todos chegamos a uma fase da vida, em que finalmente nos damos conta, do quanto a vida passa rápido realmente, e o quanto a velhice parece estar prestes a acontecer. Sinto que o assunto não é algo constante em meus pensamentos, mas quando vem, sei que não são as rugas ou a pele flácida que me afligem. Nem mesmo as possíveis doenças ou o momento de minha morte. O que receio é sobre como será o meu caminho até lá.

Viver não tem sido fácil. Se foi um dia, eu diria que foram nos momentos dos maiores desacertos: ignorante e deliciosa adolescência. Por ironia da vida, os melhores tempos vividos, são também os responsáveis pelas maiores lutas mais tarde. O conserto dos erros que ficaram, das decisões malfeitas em instantes de imaturidade, do tempo de total inconsciência.

É com o passar das décadas que realmente começamos a adquirir algum conhecimento e sabedoria sobre a vida. São necessários muitos anos e aprendizados, seguidos de mais tempo vivido ainda em reflexão, para se então assimilar a lição que ficou lá atrás. É ingenuidade quando acreditamos que aprendemos algo, logo após uma experiência de vida, como um divórcio ou a perda de alguém. Sentimos as dores do que vivenciamos, mas o aprendizado profundo sobre tudo só temos capacidade de compreender e assimilar tempos depois.

E por isso receio o caminho de minha própria velhice, mais do que o envelhecimento de meu próprio corpo. Se agora olho para trás e me dou conta, de que apenas neste momento, sou capaz de enxergar de verdade as minhas próprias limitações do passado, não será igual ou ainda mais intenso no futuro? Será que posso acreditar na minha capacidade de discernimento e de nível de consciência de hoje, ou quando olhar para trás, terei os mesmos sentimentos de remorso sobre a então atual compreensão, que terá se tornado outrora?

Também me questiono se terei tido tempo de consertar os erros ainda em aberto, além de ter alcançado os sonhos e objetivos que até então não atingi.

Não é o peso de perder a vivacidade, mas o medo de ver a vida passar, sem ter realizado tudo o que se desejava. Terei eu me tornado uma pessoa melhor, de verdade? Será o meu trabalho tão árduo quanto agora? Meus amigos e entes queridos estarão ao meu lado?

Conforme o tempo passa, mais consciência adquirimos sobre como a vida realmente funciona. E se já entendemos o quão cruel ela pode ser, é fato que tentaremos dar os passos certos a partir de então. Quem se dá conta do preço que se paga por errar, também sabe que se leva tempo para corrigir as consequências lá de trás. Curar as feridas que ficam guardadas por dentro.

Me questiono se atingi um nível mínimo de gratidão e resiliência, para seguir tranquila, sem medo de minhas próprias escolhas e de um futuro desconhecido e incerto.

A maturidade da vida nos faz perceber que envelhecer é algo natural. Se carregado de dores, é também repleto de presentes, sendo o maior de todos, o conhecimento adquirido e compreendido de tudo o que realmente vale a pena. A compreensão do verdadeiro amor finalmente adquirida e exercida.

O bom da vida que passa, apesar de todas as suas dores e os temores de um dia ou outro, é a certeza de seu próprio movimento e infinitude. A esperança que nos preenche a cada dia, pela certeza de que absolutamente nada é em vão. Há sempre um milagre que nos espera lá na frente, seja do amor, do nascimento ou da própria morte, como a breve passagem para a continuação de nós mesmos, apenas em outro lugar.

 

 

 

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