Home Todos Animal O cachorro na beira da estrada

Há dois anos eu passo por ali. Indo e voltando do trabalho, quase todos os dias no mesmo horário. E lá está ele. O cachorro velho e maltratado deitado na beira da estrada. Ele está lá, todos os dias de manhã, como se aquele lugar lhe pertencesse de alguma forma. O cachorro tem uma coleira no pescoço: velha e surrada, só não tanto quanto ele.

Foram dias de sol, chuva, frio e calor. Percebi que ele não passa seus dias inteiros ali, mas somente alguns horários específicos de seus dias: de manhã bem cedo e tarde da noite. Faça chuva ou faça sol, a beira da estrada parece ser um ponto importante em sua vida.

O cachorro parece muito velho, à beira da morte. Tem o olhar cansado e a dificuldade de andar. Tem sempre a boca fechada e as orelhas baixas. Seu pelo em tom bege tem diversas falhas, que parecem machucados de queimadura ou sei lá o que.

Não consigo deixar de imaginar que aquele ponto na estrada foi o ponto de abandono em sua vida. Provavelmente o exato local, onde seu antigo proprietário parou o carro e o largou à própria sorte.

Tento imaginar como seriam os sentimentos desse cão. Longe da maldade e raciocínio humanos, apenas segue seus instintos, esperando ali, dia-após-dia, pelo sonhado momento em que seu dono virá buscá-lo. Na sua inocência animal, acredita no esquecimento ou no ledo engano de seu melhor amigo…

Toca o meu coração seu olhar perdido e sofrido, ao mesmo atento a todos os carros que passam por ali, em torno das oito horas da manhã.

Acredito que para o velho cachorro aquele ponto se tornou a sua única razão de sobrevivência. Sempre à espera da melhor pessoa que conheceu em sua vida: aquela que um dia o alimentou, o deu abrigo e carinho em seus melhores dias. Aquele metro quadrado a beira da estrada se tornou a esperança de um dia ter sua vida de volta.

Na Rodovia da Uva, o velho cão não é o único sobrevivente. Mas dentre tantos animais abandonados ali, vivendo à míngua, foi o seu olhar, que me chamou mais a atenção. Um sofrimento que parece saltar de seus olhos.

Eu sei que este dono nunca mais irá voltar. E a disciplina e a esperança do cachorro corroem meus sentimentos, tão menos nobres que os seus. Na torcida diária, de que em alguma manhã ele não esteja mais lá. De alguma forma sua presença me machuca.

Por que a vida não o leva de uma vez? Por que os animais tem que sofrer as consequências de nossas impensadas ações? Será que algum dia aqueles que abandonaram, irão pagar por isso? Deverão sofrer na pele toda a dor, que a um animal desprotegido causaram?

Diante da total falta de respostas, sei que não desejo o abandono pra ninguém.

Também todos possuímos nossas dores, nossas beiras de estrada neste caminho chamado vida. Cada um em seu destino, assim como aquele velho cão, também sofremos os segundos de histórias irreversíveis, os quais permanecem congelados em nossas memórias. A ofensa que veio no momento de mais intensa dor ou aquele que se foi e também nunca mais irá voltar.

As grandes perdas de uma vida humana, que nos torna às vezes tão medíocres e duros por dentro, a ponto de não enxergar mais a dor do outro. Quando pior, nos torna os causadores da dor alheia. Até mesmo daquele que nos olha como seu melhor amigo, fiel e para uma vida toda.

Fiel a ponto de esperar uma vida inteira na beira de uma estrada qualquer.

Na iludida esperança de que este, um de nós, repare seu erro, que sequer deve se lembrar.

Que a piedade da vida passe por ali, naquele metro quadrado de rodovia.

Na consciência dos que um dia abandonaram.

E na consciência de cada um de nós, para que um dia se faça a diferença.

Pra que uma beira de estrada seja apenas um lugar de passagem e não de uma espera infinita.

 

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