
Tchau, mãe!
7 de setembro de 2025
Filosofia e Psicánalise
8 de outubro de 2025– De onde viemos? Para onde vamos?
Essas são questões existenciais que tem acompanhado o ser humano, desde que o mundo é mundo.
Falamos das características e diferenças entre as Gerações Baby Boomer, X, Y, Millenium e Z, quando todas elas carregam a falta de respostas que perdura por toda uma existência, geração após geração.
Somos pequenos demais, limitados e incapazes de compreender essas duas questões, que portanto nos levam à inúmeras outras.
A verdade é que não há respostas, mas suposições que se apoiam em valores e válvulas de escape como a fé, a ideia de propósito de vida, amor, caridade e outros, numa busca incessante de fazer da própria vida algo com sentido, para se sobrepor tudo aquilo que não somos capazes de compreender.
E ainda que a tecnologia continue avançando, as próximas gerações também continuarão sem respostas. Somos como formigas num formigueiro, incapazes de ver o que existe além e nos arredores. Embora as formigas não tenham inteligência racional, mas somente instintiva, a nossa pequenez também não nos permite alcançar a vastidão do universo e da própria existência. Não enxergamos o mundo, outras dimensões e nem temos capacidade intelectual, espiritual ou até mesmo paranormal, para entender sequer quem somos e porque estamos aqui.
Daí surge a fé e a necessidade de questionamentos, que nos levou ao nascimento da filosofia, que apesar de não eliminar a angústia, é capaz de amenizá-la a partir de questionamentos ainda mais profundos, que nos levam ao caminho do conhecimento e do autoconhecimento.
Deste segundo caminho, veio a Psicanálise, como o recurso para se curar a angústia de forma individual e personalizada, a partir dos preceitos de Sigmund Freud e de outros Psicanalistas e escolas que vieram com ele e depois dele.
Trata-se de uma angústia vitalícia que gera buscas e consequentemente vários caminhos alternativos, em todas as gerações, especialmente nas mais jovens, que vem com mais recursos.
O momento atual da sociedade de consumo, a qual nos tornamos, se alimenta da angústia humana para vender sempre mais e retroalimentar o capitalismo, onde nos tornamos meros fantoches, numa grande maioria inconsciente, que vê no materialismo e poder de compra, a satisfação da vida, quando no fundo, tudo o que estamos buscando é ainda responder as nossas dúvidas existenciais mais profundas:
– De onde viemos? E para onde vamos?
E tudo que vem depois delas:
– Por quê?
– Para que?
– Estamos vivendo do modo certo?
– O que tenho que fazer para ser feliz?
– Felicidade existe?
– É de comprar?
– Tem no Amazon?
Psicanálise e Sociedade
A relação entre Psicanálise e Sociedade vem para tentar compreender o vazio existencial dessa sociedade líquida. O filósofo Zygmunt Bauman publicou em sua obra de 2003, Amores Líquidos, muito do que estamos vivenciando na pele atualmente, amargamente: as relações se tornaram líquidas, porque antes a relação do indivíduo, dentro da sociedade se tornou líquida.
Motivados por um marketing que apela para nossas angústias existenciais, com a aquisição de bens materiais como solução e sonho de consumo, trocamos a ideia de bens duráveis e recicláveis por bens cada vez menos duráveis e que precisam ser trocados o tempo todo: como o último modelo de celular, de televisão, aparelhos domésticos, carro do ano, roupa da última moda e tudo o mais.
Esse comportamento de troca e necessidade de uma última versão constantemente passou a refletir nos nossos relacionamentos de afeto, quando trocamos de parceiros ao menor sinal de uma suposta falha:
– Defeito? Não! Troca!
Por isso os aplicativos de relacionamento se tornaram sucesso na sociedade contemporânea, quando as próprias pessoas se colocaram como produtos em vitrines virtuais e da mesma forma escolhem umas às outras, num simples tocar de dedos.
Uma conversa no Whatsapp até uma rápida relação que termina na cama e um adeus logo sem seguida. Nos tornamos descartáveis quase tão eficientemente como as notícias e informações, que se tornaram voláteis, incertas, complexas e ambíguas, similar ao conceito VUCA, do vocabulário militar americano da década de 90.
Essas relações então superficiais tem levado o indivíduo cada vez mais ao isolamento social, a fobia de se relacionar e de se sentir descartado, quando no fundo se trata de uma pessoa carente e com o desejo profundo de se sentir amado e especial.
Em meio a uma sociedade cada vez mais caótica e fora de controle, a Psicanálise surge como uma ferramenta de apoio para se trabalhar a angústia do indivíduo e antes também compreender os sintomas sociais, que nos levam a esse sentimento de desamparo e de estarmos sem saída.
Motivação e Propósito de vida
O ser humano precisa de motivação para viver, o que hoje comumente se atribui a um propósito de vida, seja ele a maternidade, uma carreira, um relacionamento, uma religiosidade, um comportamento altruísta, ou como muitos seguem o capitalismo de forma inconsciente: no enriquecimento ao máximo e aquisição de mais e mais bens, e cada vez mais caros e exclusivos.
Na sociedade de consumo e manipulação do rebanho, porém, a maioria dessas pessoas segue comprando, seguindo a última moda, adorando os influencers infantojuvenis, que performam sem conhecimento algum, propagando bets em prol do próprio enriquecimento, quando os seguidores se iludem atuando com postagens sem fim em todas as redes, numa névoa mental, que só estimula o entorpecimento contínuo da consciência. E acreditam que este caminho é um propósito de vida.
De onde vem o indivíduo consciente?
Como o comportamento humano é influenciado pelo meio, a maioria parece seguir o caos de olhos bem fechados e a meu ver, o maior problema é que consciência e maturidade só ocorrem com o tempo e experiência de vida.
Ninguém nasce consciente e maduro, mas se torna.
E o tornar-se só ocorre justamente através daquilo que o indivíduo mais teme e foge: do sofrimento, das dificuldades e coragem de enfrentar suas dores.
Um adulto consciente é alguém que passou por grandes perdas e quebras de ilusão: divórcio, traição, perda por falecimento, falência de uma empresa, perda da família, do dinheiro, da saúde e situações do tipo de formas graves, que realmente o levam ao chamado fundo do poço.
Ou seja, a consciência nasce da própria angústia!
Ninguém procura um psicanalista quando está bem, exceto se já for consciente. Por isso, uma sociedade consciente e profissionais de psicanálise conscientes são também algo complexo de se definir e de se esperar, pois a experiência de vida, o quanto se viveu e como se viveu, reflete diretamente na qualidade de ambos.
O círculo vicioso da angústia
Se a Pirâmide de Maslow leva a estima como o topo da pirâmide, a sociedade atual coloca neste mesmo topo a necessidade de ostentação, bens materiais e valores que não condizem mais com o ser humano de verdade, aquele que fazia parte da natureza.
E mesmo quem chega nesse suposto topo, nunca se sente satisfeito, pois a insatisfação e busca por algo mais é intrínseco ao ser humano, à essa angústia que carregamos desde sempre.
Por isso a necessidade da psicanálise individualmente falando e antes na sociedade como quem a compreende minimamente, para entender os vazios sociais e existenciais de seus pacientes.
O psicanalista Eric Fromm traz o conceito dos três dilemas existenciais, contra os quais jamais iremos vencê-los, mas somente amenizá-los:
I – VIDA E MORTE: Sabemos que um dia vamos morrer.
E de novo:
– De onde viemos? Para onde vamos?
II – AUTORREALIZAÇÃO: Buscamos nosso ápice, mas nossa vida é curta demais para compreender tudo.
E de novo:
– Consciência e maturidade só vem com a vida, em primeiro lugar. Com a superação de vários sofrimentos.
III – ISOLAMENTO: Não nos sentimos bem sozinhos, somos gregários, mas nos momentos decisivos, estamos sós.
E de novo:
– Da fobia social que estamos vivendo, quando fugimos das relações por medo de sermos descartados, quando queremos exatamente o contrário: sermos amados. Este isolamento nos torna depressivos, agressivos e silenciosamente infelizes.
Em seu texto de 1920, “O mal-estar na civilização”, Freud concluiu que o indivíduo não pode ser feliz na civilização moderna, pois segundo ele, o objetivo da civilização não é a felicidade, mas a própria renúncia a ela. A vida do indivíduo é a busca constante pela realização da satisfação do prazer, mas esta satisfação é impossível de realizar.
Conclusão
A sociedade da angústia vem com inúmeros problemas de diferentes gerações que se entrelaçam e convivem entre si, gerando consequentes dificuldades de interação, num avanço caótico da mesma civilização e da tecnologia que tende a piorar o cenário, porque esse avanço tecnológico não reverbera no avanço ético, moral e filosófico do ser.
A solução é multifatorial e começa dentro de cada um e da sociedade de um modo coletivo e organizacional. Não é tarefa fácil! E quiçá será possível!
E a minha teoria, é que além dos fatores acima, somente a própria vida, o sofrimento no caminho de cada um e superação, que gera finalmente a maturidade é o principal fator de despertar de consciência. Esse despertar não ocorre numa decisão, ninguém acorda e diz:
– Hoje eu vou despertar e me tornar consciente!
Não é assim que funciona!
O que torna o indivíduo maduro e consciente de si mesmo e do mundo que o rodeia é nada mais nada menos do que a própria angústia!
Fugimos dela como o diabo foge da cruz, mas é nela que nos encontramos.
Como já dizia o Poeta e Filósofo Rumi:
– “A ferida é por onde a luz entra em você!”
Portanto, viva a angústia!
É nela que crescemos e nos tornamos verdadeiramente humanos.
A angústia é necessária para que não morramos medíocres, hipócritas, inconscientes e absolutamente insignificantes e simulacros!
Morramos aos poucos, angustiados pela falta de respostas, mas morramos melhores, seguindo a teoria das ideias de Platão, rumo ao mundo sublime e superior, para o qual as almas superiores, os chamados modelos, já estão destinados a fazer parte!
Morro carregando a angústia, mas morro feliz: consciente de mim mesma!
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