Home Todos Comportamento As pessoas têm que ser “boazinhas”?

“As pessoas têm que ser “boazinhas”! ”.

Num bate-papo descompromissado, ouvi a sentença acima e me calei “por fora”, em respeito à diversidade de opiniões, diferentes níveis de experiências de vida e, consequentemente, da maturidade sobre a mesma. Mas “por dentro”, logo me perguntei: até que ponto, as pessoas acreditam nisto? Ou até que idade ou nível de maturidade? Quanta experiência de vida é necessária para se ver além?

Ser uma pessoa boa não tem nada a ver com ser uma pessoa “boazinha”. Ser bom é ter caráter, ética e tentar ser o mais justo possível num mundo, que muitas vezes oferece mais injustiça, trapaça, falsidade e frieza, do que o contrário. Manter os valores e princípios num meio em que os mesmos não são praticados é que é ser, verdadeiramente, uma boa pessoa.

Não tenho nada contra uma pessoa “boazinha” ou contra quem acredita que o mundo deveria ser habitado somente por pessoas assim. A questão é que o mundo em que vivemos está repleto de pessoas que se acham “boazinhas”, mas não o são de verdade. Afinal, ser bonzinho com quem se gosta é fácil. Não ser com o resto já não é ser uma pessoa tão “boazinha” assim. E por aí vai.

Afinal, o que é uma pessoa “boazinha”? Aquela que está sempre sorrindo, falando baixo e diz “amém” para tudo? Que se mantém agradável, calma e feliz em todas as situações, mesmo que esteja desejando o ódio por dentro e maldizendo por trás? Aquelas que tentam se encaixar em todos os ambientes e grupos de pessoas, tentando a aceitação de todos?

O estereótipo de pessoa “boazinha” é quase que apenas um estereótipo, que fique claro. Raras são as pessoas que podem ser realmente denominadas desta forma. A grande maioria só alimenta uma imagem de “boazinha”, até passar por uma situação, em que se sente contrariada ou ameaçada. Por experiência própria, afirmo que uma pessoa “boazinha” contrariada pode ser pior e mais perigosa do que aquela que é briguenta e não disfarça o seu mal querer.

Há de se enxergar a diferença entre uma pessoa “boazinha” de verdade, as que se imaginam “boazinhas” e as que ainda acreditam que o mundo deveria ser habitado somente por pessoas assim.

A vida e a sociedade em que vivemos, dia-após-dia, estão aí para nos provar o quanto esta afirmação é imatura, tamanha alienação da realidade ou distanciamento da vida adulta.

Dentre tanta falta de ética neste mundo, o que mais se precisa são de pessoas fortes, inconformistas e não coniventes, para lutar contra todo o mal que está aí. Precisamos das pessoas que se manifestam, brigam, vão sem medo lutar pelo que está errado, em grupo ou mais ainda, corajosas o bastante para irem sozinhas.

Já viu uma pessoa “boazinha” encabeçar uma greve ou um ato revolucionário qualquer? Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá foram raridades neste mundo e por isso se tornaram referenciais. No mais, os grandes revolucionários da história não foram pessoas “boazinhas”, mas homens e mulheres, cansados de injustiças, que souberam brigar por um mundo melhor. Não abaixaram a cabeça e muito menos tentaram agradar a todos.

Eu até gostaria de ser uma pessoa “boazinha”, se o mundo em que vivo fosse o que eu imaginava em minha infância.

Respeito as pessoas “boazinhas” de verdade, porque elas são extremamente necessárias neste mundo. Aqui, tem lugar para todos, pois cada um exerce sua função e evolução, tanto pessoal, como em sociedade. Diversidade necessária: tanto o bonzinho, quanto o revolucionário.

Entre o ser uma pessoa “boazinha” ou não, sugiro ser o que se é de verdade. Mais vale ser autêntico do que tentar descobrir o estereótipo da vez.

Autenticidade tem tudo a ver com transparência: dizer o que se pensa com honestidade e educação, além de mostrar o que verdadeiramente se sente, independente disso agradar ou não.

Embora, grande parte dos cidadãos prefiram os lobos em pele de cordeiro, há os que preferem os que se vestem de si mesmos. E desconfio que esta seja a fração da sociedade, onde se encontra o mais alto nível de maturidade e experiência de vida.

Talvez ali residam os cordeiros amadurecidos em peles de grandes lobos.

 

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