Oliviero Toscani
27 de outubro de 2015
Contatos de quarto grau
27 de outubro de 2015
Há mais de um ano meu querido psicanalista acredita que sou bipolar. Como não faço psicanálise realmente, o diagnóstico é uma possibilidade a ser explorada. E apesar da bipolaridade parecer ser algo da moda, eu nem me dei conta do que isso poderia significar. Não me dei ao trabalho nem mesmo de pesquisar no Google. É impressionante como algumas coisas interessantes podem nos passar despercebidas, ainda que seja sobre nós mesmos.
Como as conversas com meu psicanalista eram quase que casuais e infelizmente de meses em meses, demorei a registrar sua insistência sobre minha possível bipolaridade. Em uma de suas últimas investidas eu perguntei: mas o que isso significa então? E ele me disse coisas que temo até acreditar, porque eu simplesmente adorei! Achei o máximo ser bipolar. Dentre tantas coisas que ele afirmou sobre a minha pessoa e eu não ousarei repeti-las todas aqui, soando alta pretensão, foi o seguinte: “O bipolar é intenso, não se satisfaz com pouco. Se quer algo, quer muito. Se deseja, deseja muito. Se ri, ri muito. Nada é pouco ou mais ou menos. Mas intenso, em todas as suas formas de ser. Tanto para o bom, quanto para o ruim”. Eu me identifiquei na hora.
Incomodo-me tanto com o “mais ou menos” ou com o tipo de “meia vida” que tanta gente leva, como sendo algo normal e corriqueiro, que isso simplesmente não existe no meu modo de ser. Felizmente, sendo bipolar de verdade ou não, parece que realmente tenho tido o dom de viver a vida da forma mais intensa possível. E naturalmente acabo buscando pessoas que também querem a vida dessa forma. Acho até que isso acontece pela lei da atração, mais do que pelas minhas escolhas. Porque elas simplesmente acontecem.
E não vou negar o lado negativo. Pois se de um lado eu vivo mais, rio mais e desejo mais, sei da tendência do sofrer mais, do sofrer a falta de intensidade dos outros, chorando mais e assim por diante. Mas felizmente não vejo muito disso em mim atualmente. Percebo forte exigência sobre mim mesma, para que eu viva intensamente todos os dias, reforçando as suspeitas médicas.
E vejo também em mim, uma tendência muito forte de cortar de imediato da minha vida aquilo que pode vir a me fazer mal. E desde ontem eu me pergunto: será isso também a minha bipolaridade? O querer tão intensamente não sofrer, que me torna tão radical a cortar o que for, ou quem for da minha vida, na menor falta de sinal de intensidade? Sim, cheguei à conclusão que sim. Se uma pessoa não é intensa, demonstrando intensidade de desejos e sentimentos ela não tem a menor chance de permanecer na minha vida.
E finalmente entendi porque desejo tanto alguém igual a mim. Doido, louco, intenso e espontâneo. Alguém que dispense apresentações e explicações, alguém que simplesmente é.
Ninguém precisa me pedir para ser feliz, para rir ou sorrir. Acordo sorrindo e penso: como vou a deixar a vida me surpreender hoje? E ela tem respondido de formas inacreditáveis, com alegria e positividade. Diariamente.
Eu sempre fui do tipo contrário e a frente do meu tempo. Desde criança já tinha opiniões divergentes. E nada como a maturidade para me permitir me entender, me aceitar e me amar, assim, do jeitinho que eu sou, bipolar ou não.
Acredito piamente que dispenso qualquer apresentação ou explicação, embora muitos não me entendam e nem me aceitem como sou. E na verdade hoje isso nada me importa. Só sei que como um imã, ou como a lei da atração, o que eu desejo é outro bipolar, tão intenso e louco, que também dispense qualquer comentário.
Quero então viver a bipolaridade intensamente, enlouquecendo meu amado psicanalista ao ler esta matéria e a todos os normais que não compreendem o quão doce pode ser a vida bipolar. Intensa, como na verdade a de todo normal deveria ser…
Muito prazer…., eu sou bipolar. E você?




