
A maternidade como poder transformador
4 de maio de 2019
Para a nova Carolina
19 de maio de 2019A primeira vez que senti esta emoção, foi aos cinco anos de idade. A banda do tio Jair passava pelas ruas do Jardim Ferrari e parava bem em frente a minha casa. Eu mal compreendia o que era emoção naquela época, mas sabia o que sentia. Meu coração acelerava e eu sentia a música tocando junto com a minha respiração. Eu olhava as meninas da banda, como um ideal a ser atingido.
A banda ia embora e eu não podia segui-la, mas eu ficava em frente a minha casa, escutando-a passar e parar em alguns pontos das ruas de cima.
Me lembro, quando morava na Alemanha e vi, por uma única vez, uma banda de rua, bem no centro da cidade onde morava. Vergonhosa e descontroladamente, eu comecei a chorar e lágrimas caíram em meu rosto. Era como se aquela lembrança e emoção dos cinco anos de idade, de minha cidade natal, me visitassem do outro lado do mundo, reforçando a saudade que sentia de casa.
Hoje eu estava em minha cidade, vindo de carona com uma das melhores amigas que já tive na vida, falávamos no carro, sobre o quão gostoso é estar em casa e poder fazer pequenas coisas do dia-a-dia: comprar uma roupa, ir à costureira, comer um encapotado e por aí vai. Mas eu tinha me esquecido completamente da banda…, regida pelo pai da mesma amiga.
E então, lá estava eu, caminhando pelas ruas da cidade com meu sobrinho, quando ele ouviu de longe uma música e me pediu para ir até ela. Eu me perguntei, por dentro: “Será a banda do tio Jair?”. E conforme eu dava meus passos, meu coração acelerava. Pela emoção e lágrimas instantâneas que se fizeram, eu já sabia que a resposta era sim.

A emoção que senti era aquela, dos cinco anos de idade, as lágrimas molharam meu rosto e minhas mãos tremiam, ao mesmo tempo em que eu gravava alguns vídeos. Na hora, nem refleti o fato de estar trêmula e visivelmente emocionada. Por algum motivo, a banda do tio Jair parece fazer parte de quem eu sou, das minhas raízes, de algo que eu jamais deixarei de ser.
Caipira, há tempos fui embora, queria descobrir o mundo, ir para uma cidade maior, em busca de um “não sei o que”. Na cidade maior, sofri e aprendi. Mais tarde, na cidade ainda maior, sofri de novo e aprendi mais uma vez. Fui até para outro país, onde sofri mais do que nunca e aprendi mais do que em qualquer outro tempo em vida. E voltei. E sempre volto. Já compreendi, que não é necessário se ir longe, para ser feliz. Felicidade é aqui, dentro de mim. E vez em sempre em minha cidade natal.
Lugar onde eu nasci, das cachoeiras e rios, dos amigos de infância e juventude e da banda do tio Jair: Jair Rosa Góes, 70 anos de vida, 20 anos nesta banda, tendo sido a primeira em 1969, em Arandu. Semana passada estava de cama, com sintomas de pneumonia. Mesmo lutando contra problemas de saúde, estava hoje lá, imponente com sua capa e vestimenta, que parecia de um soldado ou imperador.
Se na minha cidade tem gente que luta todos os dias: no trabalho, para o sustento da família e em busca da tal felicidade, que cada um de nós procura, tem também o tio Jair, que luta contra seus problemas, mas coloca acima de tudo a emoção contagiante de sua banda. Aquela que cria lágrimas de criança em seres adultos como eu, a emoção que faz parar a cidade por onde ele passa. A música que cria memórias inapagáveis e que se tornam parte de tantas histórias, como a minha, de ser a menina do interior, que sempre serei, não importa onde e nem quando.
A menina que chora, toda vez que vê uma banda passar.




