
Lesões afetivas
16 de julho de 2016
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25 de julho de 2016
Ainda na cama, ouvi o barulho das vassouras. Uma na frente da casa e outra no quintal. De visita na casa de meus pais, eu já sabia como era a rotina. Apesar de algumas reclamações, a retirada das folhas das árvores era quase que diária, tanto na calçada, pela minha mãe, quanto nos fundos, pelo meu pai.
Relativamente avessa aos serviços domésticos, nunca entendi tamanho apreço e frequência pelo recolhimento das folhas. De alguma forma, até acho bonito.
Mais tarde, sentada num dos degraus da escada, observava a beleza daquele quintal. Como de costume, olhava as árvores, as inúmeras plantas e as flores, enquanto os diversos passarinhos vinham comer o arroz que meu pai havia deixado propositalmente no chão. Detalhe: depois de varrê-lo. E um beija-flor também bebericava a água num daqueles bebedouros de plástico.
Havia alguns vasos novos no chão, apenas com terra. Meu pai chegou e começou a plantar algumas mudas em cada um deles. Eu perguntei o que faria com tantos vasos a mais, e ele me respondeu: “Vou plantar em algum lugar por aí”.
Eu não disse mais nada. Continuei em silêncio, aproveitando a paz do lugar. Ri de mim mesma por não reconhecer os nomes dos passarinhos e das flores que meu pai citava. Além disso, lamentavelmente, me dei conta de que nunca plantei nem uma árvore e nenhuma flor.
Refleti profundamente sobre o comportamento de meus pais. Ambos na terceira idade, nunca deixaram esses cuidados de lado, mesmo que com cansaço ou alguma queixa usual. Cheguei à conclusão que trata-se de uma terapia. Me imaginei com a mesma idade e com sorte fazendo as mesmas coisas. Seria uma maneira de mantê-los para sempre ali: à minha vista.
Ao som somente do vento e dos passarinhos, percebi umas flores muito bonitas no canto de uma das árvores à minha frente. Então perguntei ao meu pai que flores eram aquelas, que se destacavam tanto. Ele disse: “É de plástico. Eu comprei!”. Ao mesmo tempo em que se levantou e retirou as flores do lugar para me mostrar.
Em meio a um acesso de risos, eu me questionava o porque daquilo ser tão engraçado. Seria a incoerência de colocar flores artificiais num jardim tão lindo? A simplicidade de meu pai? Até o momento não sei dizer e continuo achando graça de minha descoberta. Até então, parece que ninguém havia percebido.
Logo tive que me despedir daquele pedaço de paraíso, onde se encontram os meus. Sem o barulho da vassoura, do canto dos pássaros e o vento no rosto, tinha que voltar a realidade bem diferente do meu dia-a-dia.
É provável que para meus pais o seu costume de varrer as folhas seja só um velho hábito de limpeza. Mas para mim, fica a marca de quem eles foram.
As flores de plástico voltaram ao seu lugar.
Continuam lá.
E com sorte as vassouras também.
Por muito e muito tempo.
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8 Comments
Coisas do tio Vado!!!! ?
São para durar para sempre.
E vão…
Legal ler essa história e saber que isso fez parte do meu dia-a-dia!
Tempos felizes de brincadeiras na rua!
Quanta falta isso faz às crianças de hj em dia…
o tempo bom, não Fernando…. como a vida passa….. obg um bj!
Legal ler essa história e lembrar que isso fez parte do meu dia-a-dia!
Época maravilhosa de brincadeiras na rua!
Quanta falta faz isso às crianças hoje em dia…
Tão lindo o jardim dos seus pais…seu também.
Obrigada Beth querida….. beijos!!!!
Carol, eu particularmente só conheço a casa dos seus pais naquela rua onde eu com minha família também moramos por um curto tempo. Conheço sim aquela casa com ar de paz, por causa daquelas árvores na frente. Meu abraço de saudades para você.
Pois é, tia…. veja q falha a nossa, de vc nunca ter ido conhecer o nosso quintal…. vamos resolver isto apos a pandemia! saudades tb viu? essa pandemia nos deixa saudosos. um beijo no coração!